O CORPO PERFEITO
Segundo a pesquisa inédita realizada pelo Instituto
Jaime Troiano, de cada dez mulheres entrevistadas, nove declararam insatisfação
com o próprio corpo . É na adolescência que a imagem
corporal adulta é construída. Isso irá refletir uma
verdade pouco divulgada, pois não interessaria aos interesses capitalistas:
Não ensinamos os nossos jovens a lidar com as diferenças físicas
. Mulheres insatisfeitas com seus corpos, iniciam uma batalha que exige
privações e sofrimento, na luta pelo emagrecimento e a busca
do corpo ideal. Uso de drogas, sentimento de culpa diante de um bolo de
chocolate, intervenção cirúrgica, academia de ginástica
, transformam mulheres alegres e divertidas em pessoas ansiosas, complexadas
e de difícil relacionamento.
Existe um paradoxo em nosso tempo, pois nunca a humanidade
pôde comer tanto e nunca quis comer tão pouco . Porquê
? São duas hipóteses em voga que aparecem no texto “
O feitiço do corpo ideal” publicado na Revista VEJA, edição
1532 de Fevereiro de 1998 : primeira hipótese diz que a medicina
condena os excessos adiposos, logo emagrecer é imperativo da boa
saúde. A outra hipótese levantada consiste em afirmar que
há uma conspiração da indústria e da beleza,
da moda, da publicidade, do cinema e da televisão para impor o padrão
“magrela” e assim, conseguir vender remédios, roupas,
matrículas em academias de ginástica, pagar honorários
em clínicas de cirúrgias plástica e spas de emagrecimento.
Alguns antropólogos dizem que, nós, homens
dos tempos modernos, temos gravados nas moléculas do DNA, por força
da seleção natural, momentos de fome angustiante pelos quais
a humanidade passou em estiagens prolongadas, congelamentos súbitos,
pragas devastadoras, escassez de caça. Só os que tinham programas
genéticos para acumular calorias, gorduras, sobreviveram, transmitindo
essa característica para as proles. Eles engordavam nos tempos de
abundância e torravam os excessos nos períodos de escassez
. A realidade de hoje é um tanto quanto cruel, pois o que representa
a sabedoria do cérebro para enfrentar a penúria, deu origem
ao flagelo da obesidade em tempos de fartura . A biologia humana ainda reflete
um estilo de vida baseado na caça e na coleta, como o que existia
no nosso passado paleolítico.
Além disso, o homem escolhe quais serão os
seus padrões de belo ao longo do tempo. Desde os primórdios
dos regimes patriarcais, o belo é normatizado. Todas as sociedades
são marcadas por padrões estéticos bem definidos. Mais
do que tendência ou produto da disponibilidade alimentar, os modelos
de beleza ideal são signos de distinção social. Servem
para a elite sinalizar seu diferencial de classe em relação
a maioria da população. Nossa cultura de valorização
da magreza transformou a obesidade em símbolo de falência moral
. Denota descuido, preguiça, pobreza, etc.
A obesidade toca duas esferas simultaneamente, a psicológica
e a física , e por conta disso, a influência do bombardeio
de imagens, que afeta o lado psicológico , através de filmes,
fotografias, e outros itens de comparação de beleza, é
muito grande. O corpo padrão ficou mais fino e não foi por
causa dos cânones médicos, e sim porque mudaram os modelos
culturais e estéticos . Mudaram os padrões, aqueles que têm
interesse econômico nessa nova forma de encarar o belo : a elite.
A polaridade, no caso da beleza corporal, enraíza-se
em uma profunda rede de exclusões. Inacessível á maioria,
o belo é um signo de distinção social para poucos .
Com a revolução feminista, a mulher ocupa novas atividades.
Sentadas em escritórios, atrás de mesas, ou nas linhas de
produção de fábricas, ou em outra qualquer atividade
secular de trabalho remunerado, as mulheres viram seus corpos arriarem,
e já que o ideal passou a incorporar músculos bem definidos,
através do bombardeio de imagens e o operário não tem
tempo nem dinheiro para frequentar academia de ginástica, contratar
um personal trainer ou consultar um nutricionista, a gordura se tornou traço
de pobreza, de pejorativo.
O bombardeio de imagens dos dias atuais, somado à exuberância e variedade dos alimentos, disponíveis nas prateleiras dos supermercados, congestiona as mulheres de complexos e desejos voltados para a conquista do corpo perfeito . Precisamos lembrar as mulheres, ainda na fase da adolescência, de que o modelo de corpo exposto atualmente é fruto de muito dinheiro e tempo gastos com essa única finalidade.
