QUEM VAI A IGREJA, NEM SEMPRE VAI A DEUS
Temos visto surgir nos últimos anos uma categoria
de crentes cujo número tem crescido consideravelmente. Podemos denominá-los
de crentes não praticantes, isso mesmo, a mesma denominação
que antes era atribuída aos católicos que vão à
igreja somente em ocasiões especiais, como quermesses, batizados
ou missas especiais. Eles até constam nas estatísticas do
IBGE, pois quando perguntados sobre sua crença, não hesitam
em dizer que são ovelhas da igreja romana, mas na verdade são
apenas números distantes.
Nós não temos missas especiais, mas temos cultos especiais.
Não é comum usarmos o termo batizado, mas batismo. Não
temos as quermesses paroquiais com leilão de prendas, mas temos nossas
festas beneficentes, onde comemos muito e nos divertimos a valer. Em ocasiões
como estas, lá estão também nossos crentes não
praticantes. Em qualquer um desses eventos eles reencontram amigos antigos,
aqueles que com eles foram criados na Escola Dominical, a conversa normalmente
gira em torno dos velhos tempos, de como eram bons aqueles momentos. Os
pais ficam felizes com sua presença, e alguns até justificam
sua ausência, dizendo: "eles não vêm à igreja,
mas tem o temor de Deus no coração". Quando indagados
a respeito do que andam fazendo, dizem que andam bastante ocupados, pois
estão trabalhando muito ou "correndo atrás", por
isso não têm tempo para ir à igreja.
São capazes de citar versículos bíblicos que aprenderam
quando criança, alguns não xingam, não bebem e nem
falam palavrão, e da mesma forma educam seus filhos. Nos tempos de
grandes conflitos não acendem velas, nem vão às ciganas,
mas procuram irmãos consagrados em busca de profecias que lhes confortam.
Poderíamos descrever outros sintomas de alguém que se tornou
um crente não praticante, mas paremos aqui.
Creio que ficaria incompleto falar apenas da classe descrita acima sem se
dar conta daqueles que parece que estão, mas não estão,
ou seja, daqueles rostos conhecidos na igreja, porém "desconhecidos"
no altar de Deus. O que tento dizer agora é que, conquanto "devemos
nos congregar", é fato que a quantidade de vezes que alguns
vão ao templo nem sempre retrata a quantidade de vezes que os mesmos
comparecem diante de Deus. É muito bom ir à igreja, mas nossos
encontros coletivos devem ser resultado de nossos encontros íntimos
com Deus.
Jesus se esbarrava com certa freqüência com os viciados no templo
e ausentes de Deus. Não só iam às festas como também
guardavam as celebrações regulares. Eram extremamente zelosos
com as tradições que receberam sem nunca questionar seus conteúdos,
porém o que o Senhor observou neles era um engessamento das tais
tradições. Sempre que isso acontece, perde-se o que é
realmente precioso e valoriza-se o descartável, enobrece-se as coisas
e exclui-se as pessoas. Nestes dias mesmo, em que cremos estar recebendo
o vinho novo, podemos correr o risco, com o tempo, de estacionar, deixando
de perceber os acenos de Deus que nos manda seguir em frente, ao invés
de perpetuar uma manifestação. Hoje, quando você recebe
a manifestação de Deus e cai, ri ou treme, jamais pense ser
isto a última coisa que Deus está fazendo, pois não
é. Deus é muito mais que isso, e não se prende ao tempo
e ao templo. Deus não está na moda, ao contrário, Ele
nunca saiu de moda, o que Ele trás cabe em qualquer ocasião.
Nossa busca é para que todos venham a receber o novo de Deus, que
não está reservado apenas para alguns da elite, mas para todos
os que buscam.
Não deveríamos esperar encontrar o Senhor somente no templo,
pois freqüentemente condicionamos Sua presença às pessoas
que lá se reúnem, ao tipo de música que ouvimos, ao
pregador, ou mesmo à situação em que estamos vivendo.
Quando aprendermos a dedicar a Deus um tempo de excelência, estaremos
menos preocupados com estas questões. Nossa ida ao templo será
mais para celebração do que para petição. Mais
para comunhão do que para observação. O que receber
nos meus encontros diários com Ele, me fará ter novas e verdadeiras
motivações. Não irei segui-lo por causa dos milagres,
mas pelo que sei a respeito d'Ele, então direi como o salmista: Tu
me farás ver os caminhos da vida". Terei aberto diante de mim
"um caminho sobremodo excelente", onde as dúvidas escassearão
e a percepção de que Ele está por perto não
me fará ter medo do que Ele trás, julgando de forma precipitada,
mas também terei base para rejeitar o que vier a ser invenção
humana.
Destacamos até aqui dois personagens que temos observados em nosso
meio: o crente não praticante e o viciado no templo, porém,
carente de Deus; um é de ocasião, o outro, assíduo,
porém vazio. O equilíbrio vem quando descobrimos e passamos
a valorizar o tempo da intimidade. O livro "O obreiro aprovado",
de Marcos de Souza Borges (Coty), trás luz sobre isso que compartilhamos.
Segundo o autor, na Bíblia, percebemos a necessidade de se levantar
dois tipos de altares: um escondido ou íntimo e o outro público
ou testemunhal. O primeiro altar fala do testemunho que Deus dá acerca
de nós e o segundo altar fala do testemunho que damos acerca de Deus.
Existe, porém, uma importante seqüência a ser obedecida.
O altar íntimo sempre precede o altar do testemunho, ou seja, antes
de sermos apresentados aos homens, precisamos nos apresentar diante de Deus.
Ainda, segundo Coty, sem uma vida íntima com Deus, agregamos uma
inconsistência que mais cedo ou mais tarde nos fará vítimas
da vida pública e da imagem que tentamos sustentar perante as pessoas.
Intimidade com Deus não nos exclui nem nos vicia na superficialidade,
mas constrói um altar no meio da comunhão, onde o Senhor passa
a ser o centro de tudo, restaurando as nossas relações antes
doentias e dando sentido aos nossos ajuntamentos solenes.
Pr.Carlos Roberto Martins dos Santos
(O pastor Carlos é o pastor presidente de nossa igreja mãe
)
