MINISTÉRIO PASTORAL

 

MINISTÉRIO PASTORAL

O paradIgma do MinistÉrio Pastoral'
Por: Josenaldo Silva
Atualmente estuda no Seminário Batista na região da grande Lisboa. É casado com Ana Cristina, tem dois filhos, Wesley e Lucas. Congrega na Igreja Batista de Sete Rios em Lisboa.

Um pastor de uma importante denominação evangélica fora demitido de sua igreja, sob a alegação de que não conseguira atingir a meta financeira anual. Ponderava entrar na justiça contra a mesma por considerar que estava a ser injustiçado.

Que caminhos conduziram parte da comunidade evangélica a uma vivência ministerial mercantilista da fé cristã? Existe um suporte ideológico que possa legitimar essas práticas? A resposta não é fácil, mas podemos conjecturar alguns pressuspostos.

O pragmatismo surgiu nos Estados Unidos através de seu maior divulgador e um de seus maiores mentores, Wiliam James, a princípio influênciou o comercio e a indústria, passou depois às instituições de ensino, por fim atingiu a teologia.

Sociologicamente aparece em meio a transformações culturais e industriais. Em princípio do século XIX e o início do século XX a sociedade americana encontrava-se num crescente êxodo rural para uma vida urbana, deixa de ser uma economia agrária para uma economia industrial. O pragmatismo cai como uma luva neste novo ambiente que exige uma nova forma de ver e fazer as coisas. O resultado irá ditar a nova óptica de uma sociedade ávida por realização.

Até então, a vida a natureza e a práxis teológica, estava centrada nos fundamentos ortodoxos doutrinários, a preocupação fulcral era com a filosofia teológica: seus fundamentos, sua hermêneutica, seus dilemas, seus paradoxos, sua base: se era bíblica ou não, etc.

No Brasil, as instituições teológicas e não só, receberam a influência de missionários e pensadores europeus e americanos. Trouxeram a sua bagagem cultural e pregaram-na como um absoluto teológico sem o discernimento e a devida compreensão do que estava a ser ministrado as igrejas e instituições teológicas adotaram-na como uma verdade inquestionáveL.
Questionar não faz parte da maioria do vocabulário evangélico brasileiro, soa como um subversão esquerdista ou coisa do gênero.

Ora, o que tem a ver todas essas conjecturas com a vida ministerial? Qual a ligação entre o realizar pragmático e a práxis ministérial nos dias atuais? São questões pertinentes e que é necessário refletir. Eis algumas:

Resultado versus integridade

Sou de certa forma nostálgico com a vivência pastoral dos pioneiros evangélicos que desbravaram esse imenso país: homens de carácter sério, de vida de oração constante, de piedade exemplar, de modéstia e simplicidade evidentes, quando lê-se as histórias dos pioneiros das várias denominações, é impossível não sentir-se desafiado a um viver mais santo. A tônica da liderança atual está centrada no que se pode denominar uma teologia de mercado, ou seja, seus resultados.
Não importam os meios, o que é fundamental é o número de pessoas que enchem os templos. Nesse frenesí por resultados pouco importa a moral dessas pessoas, é por essa razão que ser evangélico já não causa mais impacto na sociedade: pastores divorciam-se e continuam no ministério, escândalos financeiros já não escandalizam, modelos evangélicas já posam em revistas masculinas.

Igrejas há que não questionam seus candidatos sobre sua prática devocional, íntegridade pessoal e familiar, idôneidade como cidadão, etc. O talento suplantou a obediência e a santidade, já não avalia-se um clérigo pelo que ele é, e sim pelo que realiza, o fruto está aí: líderes bem sucedidos numericamente porém derrotados em sua vivência pessoal, cheios de síndromes megalomaníacas.

LideranÇa feudalÍstica

A América Latina é pródiga em suscitar líderes com carácter feudal, em parte deve-se a chamada colonização da penísula Ibérica Européia, na prática era uma exploração dos recursos naturais, do povo e da abundante riqueza ambiental. O facto é que os exploradores estabeleceram sistemas que permitiam que poucas pessoas tivessem domínio territorial e político sobre determinado agrupamento humano.

Criou-se então a figura do coronel, do senhor doutor, do barão, etc., no Brasil ainda hoje cultiva-se a figura do coronel, essa bagagem cultural transportou-se para o meio evangélico sob a pseudo fachada do complexo messiânico. Ela revestiu-se de uma aura espiritual, o pastor vê-se como o homem da visão de Deus, o ungido, o apóstolo.

O povo brasileiro, na sua imensa maioria, tem uma carência psicosocial e cultural. A taxa de analfabetização é altíssima, calcula-se que ainda haja seis milhões de analfabetos no país, mesmo os chamados alfabetizados são simplórios em termos de cultura política e filosófica. No meio evangélico ainda pode-se acrescentar a pobreza teológica: poucos são os cristãos que estudam as escrituras metodicamente, alguns pastores não sabem fazer uma exegese do texto sagrado, poucas são as mensagem expositivas, geralmente pregam-se mensagens tópicas; é mais fácil e não exige um trabalho metódico
de estudo, pesquisa, análise e reflexão.

É nesse ambiente que surgem líderes feudais, um povo evangélico sem cultura teológica é um povo facilmente influenciável, manipulável e dominado. É por essa razão que aceita-se facilmente ensinamentos falsos tais como: teologia da prosperidade, quebra de maldição hereditária, etc.

Quais são as evidências de um líder feudal? A meu ver é preciso discernimento, mas há alguns indícios exteriores que ajudam a filtrar e perceber alguns deles: Liderança absoluta, não abre mão de possuir todo o controle. Poder absoluto, não permitem que o questionem, aliás, questionar é sinal de rebeldia. Liderança autoritária, as pessoas existem para servi-lo e não o contrário, por fim há um sinal muito evidente na cultura brasileira que demonstra o clímax desse feudalismo religioso: a liderança da igreja torna-se uma sucessão familiar, uma perpetuação da dinastia feudalística.

É interessante observar que até mesmo denominações históricas tem se vergado a esse tipo de líderes, geralmente exercido por pessoas muito carismáticas.

Ser versus fazer

Ação é a palavra mágica no mundo industrializado, resultado é outra palavra que exprime o auge da ação. Produtividade é a palavra que incorpora subjacentemente as duas anteriores. Vivemos em um sistema que prima pela produção, quanto mais produtivo uma pessoa é na sua atividade mais aceito será na sociedade.

Ora, não há nada de errado em si mesmo em ser-se produtivo, em apresentar resultados que lutou-se para conquistar. Um estudante sente-se realizado quando alcançou notas máximas nas provas pelas quais estudou, mostra o seu esforço, isso é bom e ajuda-o a maximizar as suas potencialidades.

A questão é associar o valor intríseco do ser humano ao simplismo do fazer. É nesse aspecto que o sistema secularizado por valores materialistas tem influênciado nossas relações sociais e humanas. O pastor já não é avaliado pela natureza do seu chamado, pelo que ele é como cristão e servo de Deus, e nem pela missão que o designa na teologia bíblica, pouco importa para algumas igrejas o que as escrituras tem a dizer sobre o ministério pastoral. Importa o que ele pode produzir em termos de crescimento numérico.

As escrituras ao mencionar as qualidades exigidas de um ministro, chama a atenção para o que o sacerdote é: sua integridade está acima de qualquer talento inato. As escrituras refere-se à palavra irrepreensível no que diz respeito à sua conduta familiar ética e social, bem como a integridade moral e maturidade espiritual.

Em nenhum lugar das escrituras encontra-se algum texto que associa o crescimento da igreja em termos de números ao carácter do obreiro, isto é obra do Espírito Santo.

Paulo diz que ele plantou, Apolo regou, mas o crescimento veio do Senhor. Não está no pastor realizar a obra do novo nascimento no coração humano, isto é de natureza transcendente, é algo puramente espiritual que não pode ser mensurado por avaliação humana, somente o Pai Celeste sabe os que são seus e que o servem de coração.

ConclusÃo

Pergunta-se: diante desse quadro da vivência ministerial evangélica que caminhos temos a trilhar? Penso que uma ética ministerial, alicerçada nos parâmetros de uma teologia bibliocêntrica, é um retorno ao que nos concedeu legitimidade diante da comunidade não evangélica. Significa dizer que o fulcro que norteia a motivação, o serviço, a liturgia, as disciplinas espirituais e todas as áreas envolventes da práxis ministerial, necessitam ser redireciondas aos princípios elementares da fé cristã.

Igualmente, a centralidade da mensagem cristã precisa voltar-se para Cristo. Em alguns círculos evangélicos, a mensagem é antropocêntrica, voltada para os desejos da natureza humana e tem o ser humano como centro da mensagem, em outras comunidades, destaca-se os paradígmas de natureza filosófica. Isaltino Coelho diz que há pastores que conhecem mais a respeito de Nietzsche e Platão do que a respeito de Jesus Cristo. A mensagem que pregamos é esta: Jesus Cristo crucificado, disse Paulo. O ministério subtende alguém que foi chamado, vocacionado, preparado, provado e aprovado para Cristo e por meio Dele.

Por fim, uma das teses da reforma protestante: Sola Escriptura, a revolução causada pela reforma, fora uma negação da teologia escolástica que incorporara os presupostos platônicos, com Agostinho, e Tomás de Aquino com Aristóteles. Lutero adotou a interpretação histórico-gramatical em detrimento da interpretação alegórica. O culto protestante centrava-se ao redor do púlpito e da bíblia aberta.

Um ministro tem uma ferramenta de trabalho, a bíblia, o que o bisturi é para o médico, são escrituras para o pastor. Muitos estudiosos concordam que a pregação expositiva é a que melhor, expôe com fidelidade o que diz o texto. Com certeza exigirá mais pesquisa, reflexão, uma boa exegese, e claro, um bom tempo na presença de Deus. Entretanto, fará o pregador ajustar-se àpenas ao que está escrito, sem espaço para opiniões pessoais e temas extra-bíblicos.

Assim, a congregação cresce no conhecimento de Deus e de sua palavra. Como diz o apostólo: prega a Palavra, e é oportuno mencionar: somente a Palavra.